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Filmes para colorir o seu olhar

Hoje vou deixar, conforme prometido, o terceiro e ultimo post sobre a Fotografia no cinema e na TV. E, para fecharmos com chave de ouro,  uma lista de filmes e diretores que vão colorir o seu olhar.

“- Nossa eu adorei a fotografia desse filme”

Imagino que muitos se perguntam o que isso quer dizer quando dito pelo seu amigo cinéfilo. O primeiro possível pensamento é que um filme teoricamente parece não ser feito por fotos e sim por sequencias que envolvem movimentos contínuos. A primeira ideia importante em um primeiro contato com o termo é pensar que no caso do cinema, a fotografia geralmente traduz o sentimento da narrativa, é como se as escolhas visuais que um diretor faz, nos contassem uma história complementar, nos ajudassem a compreender um universo, ou nos despertassem alguma sensação, como a saudade.

A fotografia na sétima arte pode ser avaliada em diversas facetas: pelas cores que mais se repetem dentro de um longa ou na obra de um diretor, pelo distanciamento da câmera que sempre possui uma subintenção ou pela escolha de uma filmagem que se movimenta através das mãos de quem carrega o aparelho, ou por um posicionamento estático, em tripé. Uma câmera não alcança apenas lindas paisagens, pode também capturar a mensagem mais profunda de um olhar castanho cheio de breu. Você vai aprender mais sobre um elemento que funciona como um órgão vital e precioso no cinema, e através dos exemplos abaixo, poderá observar características que viram quase uma assinatura ou marca registrada no legado de um diretor, ou no esplendor de um filme aclamado.

Então vamos lá. Algumas dicas de filmes:

O Fabuloso Destino de Amelie Poulain:

“O Fabuloso destino de Amelie Poulain” é um filme que usa e abusa de dois tons: o verde e vermelho. Mesmo quando essas cores não recebem um destaque em primeiro plano, ou seja, no foco principal de câmera, elas são colocadas em contraste com alguma cor “intrusa”, num jogo de (des) combinação que ainda assim cria um conforto ótico. O vermelho é o lado aceso de Amelie, existe nele a sua paixão e seu entusiasmo, enquanto no verde, a esperança e o lado calmo é que se manifestam. Toda a escolha visual do filme, desde os papéis de parede do quarto da protagonista até a cor da televisão, ou as estampas com bolinhas de seu figurino, inserem um tom de ternura, há um auxilio de ângulos abertos que amaciam a imagem: é como se as cores fossem cobertores pra solidão da personagem. A opção por objetos de uma cor só também contribuem na percepção de um universo retrô sem poluições – que desperta nostalgia e afeto, e revelam a pureza de Amelie.

O direito de amar:

é um filme que aborda a vida de um professor homossexual (Colin Firth) após um acidente de carro que culmina na morte do seu marido. A fotografia nesse longa é favorecida pela direção de arte que constrói cenários elegantes e de bom gosto, tudo fruto de um senso estético impar do diretor estreante Tom Ford – um estilista que imprime um cuidado notável com a escolha de cada objeto, cor ou figurino do filme. Se o fato de o filme ser dirigido por um estilista já é um bom motivo para que você preste atenção no esmero com os adereços de imagem, existe ainda mais um detalhe na fotografia extremamente relevante para observarmos: após a morte do esposo, o protagonista passa a ser seduzido por um jovem (que na vida real é o modelo Jon Kortajarena), e sempre que eles se encontram, os lábios desse jovem ficam com um rubor aguçado, artificial, chegam a parecer batom, é como se o diretor quisesse dar ênfase justamente ao contexto da sedução, como se aquela boca estivesse realçando a própria cor como um ritual de atração. Esse é um bom exemplo sobre quando a fotografia modifica apenas um detalhe para grifar uma situação.

 Filmes de Tim Burton

Dentro do universo de realismo fantástico, os filmes de Tim Burton possuem sempre uma morbidez que também é sugerida por tons cromáticos frios: o roxo, o bordô, o cinza, o preto e o branco são cores frequentemente usadas tanto nos cenários quanto nos figurinos dos atores e servem de auxilio para os ambientes infanto-fantasmagóricos criados pelo diretor. No caso do branco, até pelas nuances góticas de seus filmes, existe uma palidez comum nos personagens que quase sempre flertam com a morte – e a cor acaba recebendo um realce especial para que essa ideia se reforce em uma fotografia gélida e obscura.

Confira em: “Edward mãos de tesoura”, “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, “Alice no país das maravilhas”, “Sombras da noite”, “Batman – o retorno, A noiva cadáver”, “Os fantasmas se divertem”

Filmes de Almodóvar

As famosas cores do cinema de Almodóvar são um marco característico em seus filmes, principalmente em suas obras nos anos 80. Sempre cores quentes, rasgadas, saturadas, levianas, passionais. As mulheres de seus filmes se atiram nas consequências: são fortes, aguerridas, ferventes e as cores acompanham justamente a temperatura dessa explosão feminina, comum em suas narrativas. Cores que de tão vivas, parecem tinta fresca, dão a impressão de que a qualquer momento vão escorrer feito sangue. Existe uma extravagância cheia de informações nos cenários que compõem sua obra: flores, estampas, desenhos e cores que se derramam. Laranjas dramáticos, vermelhos explosivos que geralmente duelam com azuis passivos, amarelos esfuziantes, tons emocionais, armários abertos. As composições feitas por Almodóvar envolvem sempre incrementos da estética kitsh – um brega estratégico, que artisticamente pega bem, como por exemplo, uma estampa de oncinha, ou elementos que beiram a um suposto “mau gosto”.

Confira em: “Fale com ela”, “Volver”, “Tudo sobre minha mãe”, “Carne trêmula”, “Ata-me”, “De salto alto”, “Kika”, “A pele que habito”.

Filmes de Stanley Kubrick:

Kubrick não é apenas um diretor, mas também um sublime fotógrafo, e essa é uma característica que se sobressai em sua técnica e eleva sua habilidade artística na questão de estilo. Perfeccionismo, obstinação, obsessão, essas são características normalmente citadas no jeito Kubrick de filmar. As capturas do diretor parecem perseguir uma movimentação que quase se parece como uma dança harmônica, sem poses, sem excessos. Em “2001 uma odisseia no espaço”, a sintonia entre trilha e imagem trazem uma perfeição que beira ao desconforto: a quase ausência de diálogos e os longos planos transformam a imagem em uma linguagem cheia de metáforas.

Confira em: “Lolita”, “2001 – uma odisseia no espaço”, “O Iluminado”, “Laranja mecânica”.

 Árvore da vida:

As características fotográficas dos filmes de Terrence Malick, como “Árvore da vida” são bem peculiares. Levando em conta que a fotografia não possui apenas um aspecto formal, mas também uma escolha no que diz respeito à variação, ou conteúdo, esse filme se utiliza justamente do seu jogo de imagens para que associações e os entendimentos se concretizem. Malick sabe criar um dueto entre trilha e imagem colocando planos de apelo universal como natureza, sol, céu, vegetação despertando uma sensação “new age” em nossos olhos. Há algo de bíblico em seu jeito de revezar as imagens que vão do micro ao macro e que valorizam sempre pequenos movimentos que na tela se tornam gigantes: o vento sobre as folhas, frestas de luz que escapam por entre as árvores, as paisagens que se estendem por campos exuberantes. Existe um suspiro harmônico e uma sensação linda e angustiante de que algo grandioso está por vir. Seus filmes são ironicamente chamados de “Power Point” justamente por essa insistência do diretor, em retratar a natureza como uma instigadora de pequenas sensações sagradas. Nos filmes de Terrence, a fotografia é uma sobreposição que parece inspirar os personagens que muitas vezes jogam suas mãos aos céus, louvando a existência,  hipnotizados pela vida.

Filmes de Wes Anderson

O senhor dos enquadramentos: os filmes do diretor mais hipster de todos, além de muito coloridos e alegres, possuem diversos aspectos particulares e curiosos. Wes sempre insere alguma cena em travelling – quando a câmera se desloca pelo espaço – e isso geralmente acontece em algum veículo em movimento que captura alguma cena de forma semi-panorâmica. Existe também o uso do slow – movimentos em câmera lenta – que junto de um corte de som simultâneo valoriza e gera destaque para a cena que entra em ritmo lento. Por fim, existe uma fixação do diretor pela simetria dos enquadramentos, ângulos retos são comuns nas colocações de câmera, e nesse vídeo é possível desvendar a genialidade do truque ótico utilizado em muitos de seus takes: neles existe um ponto no meio do quadro que divide os panoramas laterais com uma perfeita harmonia estética.

Confira em: “Moonrise Kingdom”, “Os excêntricos Tenenbaums”, “O fantástico Senhor Raposo”, “A vida marinha com Steve Zissou”.

Já dizia John Goethe: “A câmera é um instrumento que nos ajuda a ver sem a câmera”. Estar atento as escolhas que um diretor faz e qual a mensagem e a sensação que chegam em você a partir da fotografia de um filme, diz muito sobre como você enxerga o mundo, ou quais aspectos visuais conversam com a sua percepção, ou como as cores influenciam na sua vida. Geralmente um filme que vai bem na fotografia, será cuidadoso com todos os outros elementos, e quem ganha somos nós.

Um comentário, RSS

  • Ana Paula

    says on:
    22 de Março de 2016 at 19:01

    Otimas dicas, irei assistir!

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