Vivemos em mundo de consumidores, e não há como fugir dessa regra. Consumimos para comer, viver e suprir as necessidades mais básicas e as supérfluas.

Atualmente esse consumo deixou de ser apenas o nosso modo de subsistência para se transformar no nosso modo de vida.  E aí entra a grande dicotomia entre o consumo responsável e o consumismo.

Zygmunt Bauman, célebre sociólogo polonês, diz que “numa sociedade consumista, todo comércio de produtos e serviços constitui, antes de mais nada, farmácias”, ou seja: o consumismo atua como um remédio para as nossas mazelas sentimentais, para nossa falta de autoconfiança e até mesmo para nossa falta de capacidade de autoconhecimento (por assim dizer o conhecimento das nossas verdadeiras necessidades).

Seria muito óbvio falar sobre o consumismo no campo da fotografia apenas citando a fome voraz que a maioria dos fotógrafos tem por equipamentos, acessórios e todo tipo de bugiganga. Mas o consumismo na fotografia vai muito além disso.

E para mostrar como esse consumismo afeta o processo criativo do fotógrafo (pra não dizer que afeta toda sua vida), resolvi trazer a distinção entre dois grupos de fotógrafos: os fotógrafos criadores e os fotógrafos consumidores.

Antes de iniciar para tais distinções cabe ressaltar que no campo prático, todos somos consumidores, não podendo escapar à regra nem mesmo os “fotógrafos criadores”, porém como vou mostrar a seguir há uma distinção entre consumir e assumir o consumismo como modo de vida e de trabalho.

Fotógrafos Criadores x Fotógrafos Consumidores

Os fotógrafos consumidores vão às palestras, cursos, workshops, compram livros, veem cursos on-line e tutoriais na internet, numa tentativa de estar sempre conectados àquilo que é a tendência do momento. Sentem medo de não estarem atualizados para oferecer aquilo de mais moderno que há, e que supostamente o mercado está pedindo. Nas palavras de Bauman “é preciso diariamente renovar e confirmar a confiança de que você tem acompanhado o ritmo frenético das mudanças, e por isso está certo”, por isso o fotógrafo consumidor se alimenta de todas as informações possíveis e disponíveis na tentativa de não ficar pra trás. Mais do que isso, o fotógrafo consumidor está em busca de fórmulas prontas: quer repetir o sucesso de outros fotógrafos se utilizando das ferramentas que eles já utilizaram. Ou seja: “se deu certo para ele, vai dar certo pra mim também”.
Os fotógrafos criadores também vão a palestras, cursos, etc. Porém compreendem que nenhuma palestra, nenhum curso e nenhum outro fotógrafo irá mudar radicalmente a sua vida ou o seu modo de fotografar. Compreendem que o conhecimento é feito a partir de diversas fontes (e que essas às vezes se contradizem) e que todas essas fontes contribuem para parte da sua transformação pessoal.

Fotógrafos consumidores copiam. Embora não assumam, partem do pressuposto (novamente) de que os resultados que já deram certo podem ser repetidos,  então replicam aquilo que já foi feito por alguém que conquistou o “sucesso”, almejando conquistar o mesmo posto.

Fotógrafos criadores transformam. Eles também se apropriam de tudo aquilo que veem, que ouvem, que tocam, que sentem, mas não replicam de forma desonesta. Os fotógrafos criadores “roubam como um artista”, transformando tudo o que absorvem de diversas formas, sem, entretanto, copiar nada literalmente (sugiro livro “Roube como um artista”, de Austin Kleon).

Fotógrafos consumidores estão sempre ansiosos pelos novos equipamentos. Isso reflete a falta de confiança que possuem no próprio conhecimento e trabalho, “culpando” sempre o seu equipamento pelas falhas que cometem ou pelo resultado que não conseguem obter. Fotógrafos consumidores estão acostumados a dizer “mas também, com um equipamento desse até eu”.  Dessa forma, a compra de um novo equipamento é sempre a esperança de a sua fotografia realmente terá um ganho de qualidade.

Fotógrafos criadores compreendem que um bom equipamento pode fazer a diferença, mas que, o que realmente faz a diferença (me perdoem o clichê) é o que está por trás da câmera. Sabem que comprar aquela nova câmera que acabou de sair não vai fazer tanta diferença, a não ser no seu bolso, por pagar muito mais pela novidade. Conseguem esperar um pouco mais para pagar um preço justo, quando e se precisarem.

Fotógrafos consumidores querem ouvir, nos congressos de fotografia, as técnicas que levaram o fotógrafo a estar lá em cima do palco. Querem descobrir “o pulo do gato”, os macetes, os equipamentos e até mesmo o quanto cobram os fotógrafos palestrantes.

Fotógrafos criadores também estão interessados em técnicas, mas acima disso querem ouvir as histórias de como aqueles fotógrafos chegaram lá, de quais fontes beberam e o que foi imprescindível para a sua transformação. Acreditam que cada palestrante é peça fundamental para uma minúscula transformação, que faz toda diferença.

Fotógrafos consumidores estão preocupados com os resultados. E dessa forma consomem vorazmente as ferramentas que tendem a pular a etapa da criação. Se há um preset, uma action, que encurte o caminho entre uma foto “crua” e o seu resultado final, por que se preocupar com o conhecimento para chegar até aquele resultado?

Fotógrafos criadores estão preocupados com o processo. O resultado final é apenas a soma de pequenas obras realizadas que se somam. Talvez os fotógrafos criadores também se utilizem de actions ou presets, mas eles sabem por que estão utilizando, não estão apenas tentando uma porção de opções para ver qual aquela que vai dar certo.

Fotógrafos consumidores estão sempre ansiosos. E essa ansiedade resulta da falta de autoconhecimento, da falta de compreensão daquilo que realmente necessitam, da falta de saber o que são, o que gostam de fotografar e os motivos que os levam a fazer.

Fotógrafos criadores procuram escutar a si próprios. Querem compreender o que se passa consigo mesmo, para então ter uma compreensão do que se passa em volta. Talvez se encontrem ansiosos, ou deprimidos também, mas por não conseguirem vencer a si próprios, e não aos outros.

Fotógrafos consumidores disputam. Fotógrafos criadores colaboram.

Ser um fotógrafo consumidor não é uma sentença, acredito que seja apenas uma etapa – embora nem todos os fotógrafos passem por ela, e outros muitos jamais saiam dessa esfera. É possível transformar-se de um fotógrafo consumidor para um fotógrafo criador, mas isso demanda um esforço muito maior do que apenas adquirir aquilo que já está pronto.

Transformar-se num fotógrafo criador implica em despir-se da arrogância (o acreditar saber tudo), do ego (o acreditar ser bom por que os outros dizem que eu sou), da soberba (acreditar ser melhor que os outros) e da superficialidade (não conhecer os processos, não conhecer as raízes). Transformar-se num fotógrafo criador implica em conhecer a humildade (saber que sabe muito pouco), a generosidade (compartilhar o pouco que sabe) e, principalmente, a si mesmo (a chave de todas as transformações).

Por uma fotografia mais criadora (e criativa) e menos consumista!