Quando a noite envolve Mariana e o movimento cotidiano cede lugar ao silêncio, figuras vestidas de branco atravessam as ruas de pedra carregando pequenas chamas. A cidade parece suspensa entre tempos distintos: o presente de quem acompanha o cortejo e a memória daqueles que vieram antes.
Realizadas em abril de 2018, estas fotografias registram a Procissão das Almas em Mariana, manifestação em que fé, mistério e tradição ocupam o espaço histórico da cidade. Sob a luz delicada das velas, os participantes transformam-se em presenças quase imateriais, conduzidas pela noite, pela oração e pelo gesto coletivo.
As imagens não procuram apenas descrever o percurso. As sobreposições, os movimentos e as zonas de sombra constroem uma experiência visual em que os corpos parecem surgir e desaparecer. As vestes brancas contrastam com a escuridão, enquanto igrejas, fachadas e ruas antigas deixam de ser simples cenário e passam a integrar o ritual.
Em alguns momentos, vemos a procissão como conjunto: uma corrente de pessoas e luzes atravessando a cidade. Em outros, o olhar se aproxima das mãos que protegem uma chama, dos rostos parcialmente ocultos, dos tecidos em movimento e dos símbolos que evocam a fragilidade da existência. Cada fotografia preserva um instante e, ao mesmo tempo, sugere aquilo que não pode ser inteiramente revelado.
O ensaio dialoga com a própria memória visual de Mariana, cidade em que patrimônio, religiosidade e vida cotidiana permanecem profundamente entrelaçados. Fotografar essa manifestação é reconhecer que as tradições não sobrevivem apenas nos documentos ou nos edifícios: permanecem vivas quando são novamente percorridas, partilhadas e transmitidas.
Em 2019, parte deste conjunto integrou uma exposição realizada na Casa de Cultura de Mariana. Agora, reunidas em uma nova narrativa, as fotografias passam a integrar as exposições virtuais de Ailton Fernandes, ampliando o acesso a um trabalho dedicado à fé, à memória e ao patrimônio cultural da cidade.
Sob o Véu da Noite é um convite para acompanhar esse percurso em silêncio. Para perceber a luz que resiste à escuridão, os passos que ecoam sobre as pedras e as presenças que a fotografia impede de desaparecer.